Um dia alguém me disse que o caminho que escolhi percorrer com relação à minha vida profissional, me faria alguém diferente do que eu era quando fiz a escolha.
Nunca esqueci essa fala e, agora com quase 3 anos que esta escolha foi feita, já sinto uma mudança enorme.
As vezes bastante confusa com tudo... A cobrança é forte e a expectativa maior ainda. Somos confundidos como as pessoas que devem entender tudo e todo mundo. Achar tudo muito tranquilo e fácil de se resolver e até capazes de não nos deixar afetar por algumas coisas, principalmente nos relacionamentos...
Para algumas pessoas, nós não sofremos, não choramos e nem nos sentimos fracos, porque somos psicólogos e temos que saber controlar nossas emoções e o que é mais preocupante, não podemos ter problemas...Temos que ser exemplos!
Em mim pelo menos, o medo é o maior dos sentimentos... Medo da responsabilidade que tenho quanto ao sofrimento e à angústia das pessoas que chegarão e já chegam até mim em busca de uma resposta, de uma solução para qualquer que seja o seu problema. Sinto esta mesma inquietação nas minhas colegas de faculdade...Esta preocupação com o outro. As falas quase sempre se repetem: "- Será que fiz o certo?", "- Será que não falei besteira?", "Ai meu Deus, que vontade de arrancar com a mão aquela dor...".
Estou em fase de estágios... Começando a entrar em contato com o que mais me dói, a dor do outro. A vontade de resolver tudo e mudar o mundo. Foi este o questionamento que fiz para a minha professora. Será que está todo mundo cego? Ou será nós que somos sentimentais demais? Tem hora que a vontade que tenho é de dar uma boa sacudida em algumas pessoas, para ver se consigo fazer com que elas enxerguem um pouco além do que os olhos nos permitem. E sabe qual a resposta que tive? "- Com o tempo você vai aprender que não consegue resolver tudo, e vai ter que aceitar isto. Por mais angustiante que seja."
Realmente faz todo sentido. Tenho que aprender a separar o que é do outro. Saber até onde posso e devo ir. Às vezes a gente se pega querendo ir além demais do que nos é permitido, com a intenção de entender e achar uma resposta e solução pra tudo. E foi assim que me vi a alguns dias atrás. Muito frágil e me sentindo totalmente fraca. Foi essa a resposta que tive que dar pra minha mãe durante uma discussão. Sabe essa história de que justamente por estudar sobre "gente" eu tenho que conseguir ser mais forte? Justamente por isso, sou mais sensível a tudo. Por estar aprendendo a ler nas "entre-linhas". Se isso é algo bom ou ruim? Não sei.
Somos iguais ou piores que todos em matéria de sofrimento e, estamos muito longe da perfeição. Estamos sempre tendo que nos policiar. Entrar em contato com a dor do outro não é fácil e, ao mesmo tempo, algo que nos desafia e recompensa.
Hoje me sinto insegura e ao mesmo tempo fascinada com tudo o que tenho vivenciado. Certa da escolha que fiz e a cada dia tecendo um pouquinho mais essa trajetória, que por sinal está apenas começando.
O medo é inevitável, e acredito que é o que nos alerta para qualquer passo em falso. Ele que nos faz querer conhecer sempre mais e ter o máximo de cautela quando se trata do "cuidado com o outro".
Tenho aprendido que a dor não é algo feio. Quando fugimos da dor, estamos fugindo do crescimento. O amadurecer depende do tropeço, do tombo. E pra mim, é a oportunidade que temos de nos conhecer...
Já evitei muito ficar sozinha, com medo do que eu poderia encontrar dentro de mim. Hoje consigo fazer isso com menos medo e com mais frequência.
A poucos dias tive uma vivência muito interessante na faculdade. Nós tínhamos que nos imaginar como pacientes terminais - aguardando o nosso dia chegar, e completar algumas frases com coisas que fossem vindo na nossa cabeça ao ler.
Falar e pensar sobre a morte as vezes não é fácil para algumas pessoas. Eu nunca tive esta dificuldade, muito pelo contrário, as vezes penso em tudo o que deixaria pra trás se ela chegasse pra mim agora. Sempre que faço isso me dá uma sensação de saudade de tudo, de todas as pessoas que tenho do meu lado, e me faz repensar no modo em como vivo a minha vida e, se este é realmente o modo como eu gostaria de estar vivendo.
E você? Já parou para pensar no que estaria deixando para trás se o seu dia fosse hoje?
Lu Aguiar
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